quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

ÓSCULO ETíLICO COLETIVO

Esperteza nunca foi o forte de Osvaldo. Um belo dia, quando via Carla, a garota que tanto cobiçava, passar na sua frente enquanto dobrava a esquina, prometeu a si mesmo: “Se ela me desse bola, juro que ficaria com ela e com mais ninguém… A Carlinha é tudo que eu quero nessa vida, ô, se é… Se essa menina quiser qualquer coisa comigo – que Deus me ouça - eu faço tudo que ela pedir…”

Carla nem suspeitava da existência de Osvaldo e o motivo de tamanha indiferença não estava nem no desprezo nem na arrogância, bonita como era podia muito bem se dar ao luxo de ignorar quem quer que fosse já que, de qualquer maneira, interessados não lhe faltavam. Moça de boa índole, os atributos físicos que recebera da genética privilegiada dos pais só não chamavam mais atenção do que sua beleza interna – Osvaldo, se soubesse disso, com certeza se sentiria seguro para tentar uma aproximação, como faziam os mais descarados.

Mulheres bonitas impõem respeito, de um jeito ou de outro; mesmo vestidas em trajes sumários os engraçadinhos pensam duas vezes antes de submetê-las às típicas cantadas ridículas e aos tradicionais (e inúteis) assovios. Com a pretendida de Osvaldo a regra funcionava da mesma forma, o que a levava a infringí-la de vez em quando. Ela se mostrava incomodada com o fato de ver escapar das mãozinhas delicadas a felicidade que tantos relacionamentos em potencial poderiam ter lhe trazido.

No caso das mulheres como Carla a beleza produz um efeito contrário e indesejável – foram muitos os futuros promissores que ela pôs para correr graças aos seus dotes “ameaçadores”. Era até irônico mas a moça, para desfrutar de momentos afetivos com o par escolhido, se obrigava a dar o primeiro passo e investir na conquista sempre que pensava ter encontrado a “alma gêmea”. Nem é preciso dizer que os alvos caíam vítimas do seu charme como moscas felizes na teia de uma aranha encantadora, mas como o que é bom dura pouco eram descartados logo em seguida.

Não eram bonitos o bastante? Sim, eram. E apenas isso.

Quem a via nas festas, sempre tão deslumbrante e cercada de comentários masculinos, logo a associava com uma autêntica “devoradora de homens”. Natural, a maioria delas (porque as críticas ao comportamento de Carla partiam principalmente delas, as outras garotas) desconhecia a doce pessoa por trás daquela aparência espetacular. Os quase 1,80 m de altura, os longos cabelos negros e os olhos de safira impediam qualquer tentativa de descrevê-la para além do aspecto físico; esse belo arranjo, indiscutivelmente atraente, inspirava inveja nas demais, incluindo as mais bonitas.

Carla, em todo seu esplendor, linda por dentro e por fora, conseguia o impensável para alguém na sua posição: afastar homens e mulheres de diante de si. A beleza representava para ela tanto uma bênção quanto uma maldição. Apesar das poucas amigas, duas ou três para ser mais exato, contava também com o carinho e a compreensão dos pais e dos avós (esses em particular não viam razão nenhuma na constante queixa da neta, diziam a quem quisesse ouvir, inclusive à garota, que ela “chorava de barriga cheia”).

O pai e a mãe da moça a tratavam por “princesinha”. Sem se importar com a estatura da filha, a imagem mental que tinham dela era ainda a daquela menininha de três, cinco anos de idade, que não cansavam de mimar. A bela, por algum acaso feliz, à medida que crescia, deixava para trás todo conceito estereotipado formado em torno de quem vive dentro de tais ambientes excessivamente acolhedores.

Ela tinha tudo para ser uma boneca de porcelana cheia de “não me toques” que mediante o primeiro tropeço se estilhaçaria, tinha tudo para ter se tornado aquele tipo de pessoa que ao se deparar com alguma frustração imediatamente entra em crise… Mas não, ela percebeu a armadilha antes de ser tarde demais e numa sábia, porém incomum, decisão resolveu mudar de rota, alterando de forma drástica um destino que já se pronunciava. O glamour das passarelas estava logo ali à sua frente, quem sabe até as câmeras de TV e os estúdios de cinema - sem contar as capas de revista – mas novamente ela soube dizer não.

Ela não servia para aquele tipo de coisa, não se encaixava naquele papel. Popularidade, para aquela moça, só se fosse entre os familiares e amigos, com esses ela podia se sentir “em casa”, de verdade. Embora privilegiados como Carla tenham grandes chances na vida, alcançando status na pirâmide social, e muitos dentre eles logicamente tirem proveito dessa condição para chegar onde querem, existem sempre aqueles que relutam, nadando contra a maré das estatísticas previsíveis.

Enquanto uns procuram a fama, sob pena de deitar em certas camas, por espontaneidade ou não, outros (poucos) preferem meios, assim, digamos, menos “ortodoxos”, como o uso da inteligência. Da simpatia também, mas para outros fins que não o de celebridade. Se Carla era uma garota romântica e se esse romantismo ultrapassava a vida amorosa, indo se espraiar em outros campos, só quem convivia com ela podia atestar; ela, contudo, mantinha firmes os pés no chão e claros os seus propósitos quando o assunto enveredava para o lado profissional: ser mais uma concubina no harém dos sultões televisivos estava fora das suas considerações.

Por ter os pés no chão detestava a atitude daqueles que a endeusavam, pondo-a num pedestal.

As pessoas pareciam programadas para reagir daquela maneira toda vez que a viam, e ela quase passou a acreditar em teorias conspiratórias por causa disso. Algum admirador secreto, algum fã misterioso talvez estivesse por trás dessa campanha. Não via a hora de acertar as contas com esse cretino.

Em meio a essas circunstâncias veio a conhecer Osvaldo; a amiga de uma amiga fez a ponte, intermediando os dois.

Osvaldo vivia nas rodas de violão, era apaixonado pelo som produzido por aquelas seis cordas, mas não tocava tão bem quanto imaginava. Culpa dos amigos que só o viam empunhar o instrumento quando estavam bêbados, nesse estado davam todo o apoio moral de que precisava para mantê-lo confiante, já que até alcoolizados mostravam habilidades visivelmente maiores que a dele.

Quando sóbrios e na companhia de Osvaldo incentivavam quaisquer outras atividades que não envolvessem sessões de tortura auditiva – a (má) fama o precedia.

Estavam todos reunidos na escadaria da faculdade no dia em que Carla foi apresentada a eles. A eles e à multidão de garrafas que se amontoavam por ali; circulando de mão em mão, de boca em boca, numa grande confraternização enóloga e cervejeira, com direito à troca indireta de fluídos salivares: um etílico ósculo coletivo.

Carla se sentiu bem à vontade, perdeu todas as aulas e repetiu a ausência no próximo encontro. Estava pasma, algo incrível vinha acontecendo. Nenhum deles havia lhe passado cantada alguma! Será porque estava embriagada e elas deixaram de ser percebidas? Assediavam-na desde a mais tenra adolescência, não lhe davam trégua nem na igreja, onde com freqüência perguntavam a ela: “Você caiu do Céu?” – emendando sem pausa o arremate – “Porque parece um anjo!”

Claro, ela não aguentava mais tanta falta de originalidade, e depois de ter ouvido a mesma lorota por vezes sem conta, antecipava a resposta de bate-pronto: “Caí, bem em cima da sua cabeça, e seu cérebro foi afetado pela queda.”

Essa era até bem-humorada, aplicada nos idiotas recém chegados; com os “guerreiros”, os insistentes, os impertinentes, usava frases mais singelas: “Vai pra p… que te pariu!, “Vai tomar no seu c…!”

E eles então descobriam que aquele ser angelical não era tão angelical assim.

O novo grupo de amigos parecia diferente; estava se reunindo a eles pela terceira, quarta vez e até o momento nada de gracinhas, sequer uma pequena manifestação de interesse… Nenhum dos rapazes a via como uma deusa, isso a deixava maravilhada, finalmente sabia como se sentiam as pessoas “normais”…

O comprometimento com os parceiros lembrava um casamento sem sexo - se porventura houvesse seria livre, com todos participando da relação, homens e mulheres –, tinha preferência pelo bando inteiro, sem exceção…

Numa das rodas Osvaldo chegou atrasado.

Apresentando um comportamento estranho, tendo bebido somente água (segundo ele), tentava entrar no clima a qualquer custo. Queria agradar Carlinha e não mediu esforços para tanto. Exibindo um bom gosto musical de dar inveja, expôs a todos o maior repertório de canções bregas que já haviam visto, ofendendo sensivelmente os tímpanos dos que lá se encontravam. O álcool amortecera-lhes os sentidos até certo ponto, depois disso a serenata ultrapassou o limite da tolerância e tiveram de convidá-lo gentilmente a se retirar, o que não saiu como esperavam.

Aquele não era o Osvaldo com quem estavam acostumados. Agressivo, vociferava: “A Carlinha é minha, só minha! Não vou dividir ela com mais ninguém!” Agia feito a criança mimada cujo doce fora proibido pelos pais; logo ele, o mais velho da turma. E prosseguia demonstrando essa faceta inédita, dirigindo-se à Carla como se ela não estivesse ali presente… A garota quase podia se perguntar: “De que Carlinha esse cara tá falando?

A abrupta, violenta e totalmente inapropriada declaração de amor pegou-os de surpresa, toda aquela situação era absurdamente nova, jamais na história daquele grupo de amigos ocorrera algo semelhante. Se sentindo responsável pelo inconveniente, voltando a experimentar a sensação desagradável de estar acima da realidade partilhada por todo mundo, da qual pensava ter se livrado, a moça achou melhor se afastar, pelo menos até que a poeira baixasse.

Osvaldo, que não era conhecido pela esperteza, perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado. Talvez a melhor de sua vida.

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