No “centro nervoso” do encouraçado chamado Frankie o desgostoso Robert Conroy quase se arrependia das suas aptidões científicas. Ciente das responsabilidades trazidas pela profissão, mesmo as análises cuidadosas acerca das implicações dos muitos inventos que assinou, mesmo as tantas medidas preventivas tomadas, ao fim e ao cabo se revelaram insuficientes.
Sua mais poderosa arma caíra em poder de pessoas mal-intencionadas – ou ao menos armas bastante semelhantes a ela –, acrescentando novo ingrediente à já saturada taça das inúmeras preocupações humanas: o relógio do juízo final posto em funcionamento.
Por conta das obrigações que tinha para com os superiores o armagedom estava novamente às portas, ameaçando acordos de paz arduamente firmados.
E, por conseguinte, toda a espécie humana.
………………………
Os militares vinham acompanhando o progresso dos orientais na área de tecnologia espacial desde as primeiras investidas; o bem-sucedido lançamento do segundo foguete asiático tripulado levou-os a investigar mais de perto as atividades nipônicas.
Comparações inevitáveis entre as duas tecnologias, estabelecidas tanto pela imprensa oficial como pelos formadores de opinião independentes, trouxeram desconfiança e temor aos americanos, que pensavam: “O que mais esses amarelos estarão escondendo?”
Desconfiança e temor público que, aliados à curiosidade crescente em relação ao poderio rival, os fez abrir a guarda, expondo na vitrine algo dos seus avanços recentes no intuito de que reagissem da mesma forma à demonstração. Esperavam atacá-los no campo psicológico, contando com o presumível complexo de superioridade dos orgulhosos concorrentes para que o plano desse certo.
Tudo em vão. Nenhuma das tecnologias apresentadas se mostrou capaz de impressioná-los, relegando a estratégia ao fracasso total; do mesmo modo, a armadilha psicológica sequer conseguiu atiçá-los, exteriorizando apenas a atitude mental dos idealizadores do experimento.
“Ou os orientais têm cartas melhores na manga ou simplesmente não topam desafios sem ter um bom motivo…” – era o que passava pelos pensamentos dos militares.
A idéia de infiltrar agentes disfarçados em seu meio, a possibilidade de localizar um cientista mais ambicioso e passível de chantagem (algum traidor que relatasse o andamento do programa em troca de uns dólares a mais na conta bancária - sem mencionar um green card), eram hipóteses tentadoras… Táticas de espionagem industrial datadas do período da Guerra Fria, das quais jamais imaginavam lançar mão outra vez, sugeridas como opção a ser levada a sério.
Os recursos disponíveis (satélites espiões dotados de visão termoscópica; aviões que supostamente nenhum radar localizaria, entre outros) não surtiriam o efeito desejado - o cerne da questão jazia exatamente no cerne daquelas instalações; além do que, invadir o espaço aéreo daqueles países significava declarar guerra a todos eles - afinal bastariam somar dois mais dois para se chegar aos responsáveis (Estados Unidos e Japão eram as duas maiores potências mundiais, cooperando efetivamente em muitos assuntos… mas nenhum que ultrapassasse a esfera terrestre).
Todas as possíveis abordagens acabariam por forçar os laços de amizade até o ponto de ruptura… não havia muito a se fazer, portanto.
Japoneses, chineses e coreanos do sul trabalhando em conjunto, sob a coordenação dos profissionais da terra do sol nascente, tomaram a dianteira na conquista da Lua.
………………………
À margem dos acontecimentos, Bobby continuava produzindo; completamente absorto em suas descobertas e invenções, como de praxe.
Recebera o comunicado da NASA referente a uma certa Parada do Dia de Ação de Graças solicitando a liberação de parte das inovações técnicas do seu grande acervo para a exposição pública, com o que concordou inteiramente, somente advertindo-os sobre a importância de manter os curiosos afastados. Semanas depois notou a presença de oficiais do alto escalão das forças armadas desfilando pelos corredores da instalação, em visitas que se tornariam constantes.
Estranhou o inusitado de o evitarem, requerendo a atenção apenas dos auxiliares (seria proposital? Estaria participando de algum teste?); fora isso, nada de mais – aquela era uma base de operações secretas, nela se realizavam pesquisas buscando novos materiais para o desenvolvimento de aparatos técnicos de vanguarda que mais tarde seriam utilizados pela agência espacial americana. Militares, sobretudo tropas do exército, zelavam diuturnamente por todo o perímetro ao longo do qual se estendia aquele tesouro inestimável, guardado a sete chaves pelo departamento de defesa nacional, que o subsidiava.
Bobby trabalhava com afinco, se dedicando à causa do progresso científico, como gostava de pensar; embora soubesse da faca de dois gumes que tinha nas mãos, era o aspecto positivo dos inventos o principal estímulo da sua produção quase incessante, visão bastante distinta da conservada pelos superiores. No ímpeto de produzir, produzir, deixou de perceber o que para os companheiros de equipe estava claro: serviam desde sempre aos interesses da nação, priorizando a segurança do Estado, sendo assim, todo artefato com potencial para ser utilizado como arma deveria ser revertido a esse propósito, mesmo que à princípio tivesse sido projetado com outra finalidade.
Há tempos o grosso da produção saída da base, em vez de ser transportado aos campos de prova da NASA, seguia direto para a divisão de testes do departamento, contrariando os ideais pacifistas do filho do dr. Conroy. O sujeito nunca havia se casado mas interpretava como ninguém o papel de marido traído, alienado na condição de “último a saber”. E ao tomar conhecimento dos fatos o horror emergiu das profundezas obscuras feito o Leviatã, fazendo-o perder o referencial que o orientava, o ponto de apoio que o fixava aos valores humanitários herdados da família.
Imaginar que a mesma curiosidade acerca das coisas que o elevara àquele estado de felicidade infantil pudesse algum dia lhe privar do sentido de uma vida era doloroso demais. No amargar daquela decepção, a inocência do homem chamado Bobby encontrou seu fim, condenando ao mesmo destino a alegria pueril no nome de criança que ostentava.
Robert Conroy estreava na vida adulta (a despeito da idade cronológica tê-lo situado nesse período muitos verões atrás) com a certeza de ter sido enganado por raposas espertalhonas há pelo menos três décadas, agora a galinha dos ovos de ouro do Tio Sam precisava deixar aquele covil de aproveitadores. Pegaria o que lhe era de direito e abandonaria a farsa, guardando para si a decisão inadiável, irrevogável – revelá-la significaria se entregar de livre e espontânea vontade à corte marcial… E depois, seus dias de ingenuidade haviam acabado…
Ou não?
Continua…
Sua mais poderosa arma caíra em poder de pessoas mal-intencionadas – ou ao menos armas bastante semelhantes a ela –, acrescentando novo ingrediente à já saturada taça das inúmeras preocupações humanas: o relógio do juízo final posto em funcionamento.
Por conta das obrigações que tinha para com os superiores o armagedom estava novamente às portas, ameaçando acordos de paz arduamente firmados.
E, por conseguinte, toda a espécie humana.
………………………
Os militares vinham acompanhando o progresso dos orientais na área de tecnologia espacial desde as primeiras investidas; o bem-sucedido lançamento do segundo foguete asiático tripulado levou-os a investigar mais de perto as atividades nipônicas.
Comparações inevitáveis entre as duas tecnologias, estabelecidas tanto pela imprensa oficial como pelos formadores de opinião independentes, trouxeram desconfiança e temor aos americanos, que pensavam: “O que mais esses amarelos estarão escondendo?”
Desconfiança e temor público que, aliados à curiosidade crescente em relação ao poderio rival, os fez abrir a guarda, expondo na vitrine algo dos seus avanços recentes no intuito de que reagissem da mesma forma à demonstração. Esperavam atacá-los no campo psicológico, contando com o presumível complexo de superioridade dos orgulhosos concorrentes para que o plano desse certo.
Tudo em vão. Nenhuma das tecnologias apresentadas se mostrou capaz de impressioná-los, relegando a estratégia ao fracasso total; do mesmo modo, a armadilha psicológica sequer conseguiu atiçá-los, exteriorizando apenas a atitude mental dos idealizadores do experimento.
“Ou os orientais têm cartas melhores na manga ou simplesmente não topam desafios sem ter um bom motivo…” – era o que passava pelos pensamentos dos militares.
A idéia de infiltrar agentes disfarçados em seu meio, a possibilidade de localizar um cientista mais ambicioso e passível de chantagem (algum traidor que relatasse o andamento do programa em troca de uns dólares a mais na conta bancária - sem mencionar um green card), eram hipóteses tentadoras… Táticas de espionagem industrial datadas do período da Guerra Fria, das quais jamais imaginavam lançar mão outra vez, sugeridas como opção a ser levada a sério.
Os recursos disponíveis (satélites espiões dotados de visão termoscópica; aviões que supostamente nenhum radar localizaria, entre outros) não surtiriam o efeito desejado - o cerne da questão jazia exatamente no cerne daquelas instalações; além do que, invadir o espaço aéreo daqueles países significava declarar guerra a todos eles - afinal bastariam somar dois mais dois para se chegar aos responsáveis (Estados Unidos e Japão eram as duas maiores potências mundiais, cooperando efetivamente em muitos assuntos… mas nenhum que ultrapassasse a esfera terrestre).
Todas as possíveis abordagens acabariam por forçar os laços de amizade até o ponto de ruptura… não havia muito a se fazer, portanto.
Japoneses, chineses e coreanos do sul trabalhando em conjunto, sob a coordenação dos profissionais da terra do sol nascente, tomaram a dianteira na conquista da Lua.
………………………
À margem dos acontecimentos, Bobby continuava produzindo; completamente absorto em suas descobertas e invenções, como de praxe.
Recebera o comunicado da NASA referente a uma certa Parada do Dia de Ação de Graças solicitando a liberação de parte das inovações técnicas do seu grande acervo para a exposição pública, com o que concordou inteiramente, somente advertindo-os sobre a importância de manter os curiosos afastados. Semanas depois notou a presença de oficiais do alto escalão das forças armadas desfilando pelos corredores da instalação, em visitas que se tornariam constantes.
Estranhou o inusitado de o evitarem, requerendo a atenção apenas dos auxiliares (seria proposital? Estaria participando de algum teste?); fora isso, nada de mais – aquela era uma base de operações secretas, nela se realizavam pesquisas buscando novos materiais para o desenvolvimento de aparatos técnicos de vanguarda que mais tarde seriam utilizados pela agência espacial americana. Militares, sobretudo tropas do exército, zelavam diuturnamente por todo o perímetro ao longo do qual se estendia aquele tesouro inestimável, guardado a sete chaves pelo departamento de defesa nacional, que o subsidiava.
Bobby trabalhava com afinco, se dedicando à causa do progresso científico, como gostava de pensar; embora soubesse da faca de dois gumes que tinha nas mãos, era o aspecto positivo dos inventos o principal estímulo da sua produção quase incessante, visão bastante distinta da conservada pelos superiores. No ímpeto de produzir, produzir, deixou de perceber o que para os companheiros de equipe estava claro: serviam desde sempre aos interesses da nação, priorizando a segurança do Estado, sendo assim, todo artefato com potencial para ser utilizado como arma deveria ser revertido a esse propósito, mesmo que à princípio tivesse sido projetado com outra finalidade.
Há tempos o grosso da produção saída da base, em vez de ser transportado aos campos de prova da NASA, seguia direto para a divisão de testes do departamento, contrariando os ideais pacifistas do filho do dr. Conroy. O sujeito nunca havia se casado mas interpretava como ninguém o papel de marido traído, alienado na condição de “último a saber”. E ao tomar conhecimento dos fatos o horror emergiu das profundezas obscuras feito o Leviatã, fazendo-o perder o referencial que o orientava, o ponto de apoio que o fixava aos valores humanitários herdados da família.
Imaginar que a mesma curiosidade acerca das coisas que o elevara àquele estado de felicidade infantil pudesse algum dia lhe privar do sentido de uma vida era doloroso demais. No amargar daquela decepção, a inocência do homem chamado Bobby encontrou seu fim, condenando ao mesmo destino a alegria pueril no nome de criança que ostentava.
Robert Conroy estreava na vida adulta (a despeito da idade cronológica tê-lo situado nesse período muitos verões atrás) com a certeza de ter sido enganado por raposas espertalhonas há pelo menos três décadas, agora a galinha dos ovos de ouro do Tio Sam precisava deixar aquele covil de aproveitadores. Pegaria o que lhe era de direito e abandonaria a farsa, guardando para si a decisão inadiável, irrevogável – revelá-la significaria se entregar de livre e espontânea vontade à corte marcial… E depois, seus dias de ingenuidade haviam acabado…
Ou não?
Continua…
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