sexta-feira, 17 de junho de 2011

O QUE ACONTECERIA SE... (PARTE 8)

Robert precisava transferir sua consciência para o autômato o mais breve possível… de uma vez por todas. Tanto adiamento só servia para reviver a condição que pensara ter renegado. Precisava se ver livre daquela natureza humana sem serventia. Dar adeus ao homo sapiens residente.


Arrastar aquele “corpo velho e cansado”, aquele “peso morto”, era por demais custoso; demandava uma quantidade de energia que poderia muito bem estar sendo empregada para fins mais úteis, como por exemplo abastecer um único órgão em lugar de tantos.


O que tinha em mente dispensava a utilização dos arcaicos métodos Frankenstein, que tampouco dominava. Biomedicina e engenharia mecatrônica constituíam áreas bastante distintas, sem qualquer relação direta entre si. Remover cirurgicamente o cérebro e acoplá-lo a uma bateria elétrica que provesse suporte às suas funções neurofisiológicas era ridículo por si só.


Naquele ano de 2027 onde até as guerras travadas nos países subdesenvolvidos ganharam status de civilidade, com a tecnologia bélica conferindo aos oponentes um mínimo de derramamento de sangue, se valer de experimentos tão antiquados equivalia retornar à barbárie. E tamanho primitivismo o deixava enojado.


Ali mesmo, naquela base, havia recursos mais limpos e sutis. Não obstante tivesse de sujar as mãos para obtê-los, o sacrifício valeria a pena.


………………………


A missão dos Estados Confederados do Oriente consistia em expandir o alcance da espécie, transportando-a num futuro próximo às colônias lunares que pretendiam fundar. Um objetivo nobre, movido pela necessidade animal de sobrevivência…


Necessidade que fez da Terra um “criadouro de porcos humanos”, cuja presença superpopulosa transformara o planeta num “chiqueiro”.


Em outra época os esforçados orientais poderiam contar com o apoio incondicional do inventor, seu altruísmo exacerbado jamais lhes negaria qualquer ajuda…


O caráter filantrópico, humanista, pelo qual se tornara conhecido colocaria o sentimentalismo acima da lógica, cegando-o para o fato de que promovendo o deslocamento da raça humana estaria evidentemente colaborando com o transporte da “praga” para outro local… Quando o certo a fazer seria desenvolver meios de controlar a “infestação”… Impedindo-a de se espalhar feito erva daninha…


Dedetizando-a, talvez…


Os bem-intencionados cientistas asiáticos estavam com a cabeça no mundo da Lua, não apenas literalmente – guiados por aquele sentimento de solidariedade pareciam fotos antigas do velho Bobby; ainda eram inocentes e iludidos demais para perceber a inutilidade de todo aquele caríssimo investimento. Eles nem ao menos haviam parado para pensar nos autores do ataque… sobre quais eram suas verdadeiras motivações ao efetuarem disparos contra a valiosa biosfera artificial que lhes servia de abrigo…


Os legítimos responsáveis pelo atentado, ocupando os mais altos postos nas instituições governamentais, gente da mais elevada hierarquia, estariam entre os primeiros a serem acolhidos pela colônia… A cobra peçonhenta que morderia a mão dos que a amparam seria levada sem qualquer suspeita para aquele ninho… Cederiam gentilmente suas acomodações àquela corja, que em nada diferia do restante da humanidade…


Quanto a ele, bastava o usufruto da avançada tecnologia posta à sua inteira disposição.


………………………


O grande obstáculo à interação homem/máquina era a construção de um cérebro eletrônico capaz de reagir a estímulos nervosos. Para a causa do progresso científico a superação de tal obstáculo seria sem dúvida um avanço extraordinário, um verdadeiro divisor de águas na área da robótica. Mas não se tratava do objetivo perseguido por Robert, na época em que preferia ser chamado de Bobby.


Todos os envolvidos no projeto de Inteligência Artificial haviam apostado suas fichas em sistemas de aprendizagem por meio de reconhecimento de padrões, sustentados por unidades de processamento conectadas entre si (segundo o modelo estrutural dos neurônios no cérebro humano). Uma vez que outras formas de se chegar à IA* por caminhos diferentes das redes neurais artificiais que operavam através de memória associativa (como eram melhor conhecidas essas técnicas) obtiveram resultados insatisfatórios, Bobby não fazia objeção quanto ao assunto.


Como os demais, só tinha a comemorar pois Frankie, o hardware onde desenvolveu o programa, já havia aprendido o suficiente de xadrez para desafiar a ele e toda a equipe quando ligado a uma fonte externa. Por ora, aquele era todo o conceito de interação homem/máquina que o interessava – independente do que os colegas de pesquisa pudessem estar “aprontando”.


Um convite inusitado, porém, conseguiu a façanha de fazê-lo trocar seus múltiplos afazeres por um ao qual realmente não foi capaz de resistir. Era a oportunidade de firmar uma rara parceria entre a engenharia mecatrônica aeroespacial e a física nuclear. Unindo o melhor de dois mundos, o mais experiente projetista de robôs do planeta e algumas das maiores autoridades em engenharia molecular, a insinuante proposta da nanotecnologia parecia irrecusável.


Quatro décadas de teorização acumulada aguardavam pacientemente a chegada do dia em que artefatos de dimensões microscópicas seriam capazes de manipular estruturas moleculares de modo efetivo, e essa idealização finalmente via a hora de se tornar fato concreto graças ao aperfeiçoamento alcançado pela tecnologia. Desnecessário dizer que Bobby estava tomado de contentamento por poder participar daquela nova revolução, ainda mais naqueles momentos tão decisivos.


Não demorou muito e os nano-robôs, engajados na tarefa para a qual foram programados, já demonstravam enorme eficiência na área médica, reparando células disfuncionais a partir de seus blocos de formação básicos; e em menos tempo do que se imaginava, passavam a inserir novos elementos à genética de seres unicelulares. No mesmo ritmo acelerado de trabalho, engendraram a primeira bactéria eletricamente carregada; até que, da fusão da genética com a eletrônica, forjassem microprocessadores eletrônicos biológicos!


Naquele mundo assolado por catástrofes ambientais de todo tipo, onde a superpopulação pagava pelo exagero consumista que a devorava pouco a pouco, nada mais natural do que dar prioridade ao que supostamente representaria a maior preocupação da espécie humana; mas, improvável como pudesse parecer, ainda havia quem discordasse de que a inédita e revolucionária tecnologia deveria ser voltada para a conservação do que restou do meio ambiente. Ser ecologicamente correto, pelo menos para a indústria petrolífera, não era algo economicamente viável.


Quando mencionaram a criação de bens de consumo biodegradáveis, o que incluiria automóveis movidos a energia limpa, todas as grandes companhias de petróleo levantaram a voz em protesto, sugerindo outros possíveis usos para as vastas aplicações da nanotecnologia orgânica. Bobby, com a discrição de monge budista que lhe era peculiar, simplesmente deu as costas para o debate travado entre as partes interessadas – apesar da forte inclinação ambientalista, a defesa da sustentabilidade estaria comprometida se contasse somente com seu empenho político. Antes que as negociações fossem encerradas, incentivando o pleno desenvolvimento das pesquisas ou coibindo esse avanço, uma idéia incrível lhe ocorreu.


E se substituisse a rede neural artificial de Frankie, formada por microprocessadores eletrônicos de silício (inorgânicos, portanto), por outra nova em folha, feita à base de elementos orgânicos?


Os nano-robôs já haviam otimizado microprocessadores biodegradáveis em número suficiente para que rede semelhante fosse construída, tudo o que tinha a fazer era pôr a mão na massa. Além disso, circuitos bio-eletrônicos, sendo vivos, guardavam material genético em invólucros celulares, detalhe que o colocava diante de uma perspectiva ainda mais abrangente – e que talvez pudesse alargar o horizonte de seu convívio com Frankie. Em tese, não haveria problema em misturar células nervosas àqueles sistemas neurocomputacionais, já que as células que desenvolveriam não iriam muito além do estágio embrionário; em outras palavras, neurônios seriam perfeitamente capazes de se adaptar a ambientes como aquele, dada a natureza de ambos… Tratamentos com células-tronco, de modo bastante similar, comprovavam a hipótese.


De repente lá estava o cientista, quase agradecendo a alguma entidade sobrenatural por estar cercado de invenções tão polivalentes; iguais à broca laser de espessura reajustável, controlada roboticamente, que servia tanto para dividir cofres fortes ao meio quanto para realizar incisões cirúrgicas milimetricamente precisas em crânios frágeis feito cascas de ovos – como o dele. E claro, a broca vazada permitia recolher a quantidade necessária do material alcançado, cauterizando automaticamente a região ao sair, deixando seqüela equivalente à picada de mosquito.


Mas a experiência não parava por aí.


Sensores foram acoplados à rede geneticamente alterada, ligando-a ao ansioso cérebro do pesquisador; em resposta Bobby sentiu os pensamentos projetados ao longe, como se seu conteúdo mental houvesse se expandido. Adicionar neurônios àquela teia de circuitos, além de implementá-la com as funções cognitivas intrínsecas a tais células (elevando a fase primária de reconhecimento de padrões à enésima potência), também serviu para maximizar os processos cerebrais do inventor, que receberam o acréscimo de um disco rígido todo especial.


Realização fantástica que, no entanto, ainda permanecia incompleta.


Restava instalá-la em Frankie e em seguida estendê-la a todos os seus quatro membros, a fim de que simulasse os sistemas nervosos central e periférico. Se conseguisse fazer com que os impulsos cerebrais enviados ao autômato fossem convertidos em movimento, tornando controláveis as partes móveis do gigante da mesma forma natural que estava habituado a fazer com as próprias articulações, isso recompensaria o trabalho de duas vidas – iniciado com o falecido William Conroy na distante década de 60, quando jamais imaginou que a experiência dividida com o invento poderia chegar a tal ponto.


Utilizar a energia cerebral como força motriz da enorme máquina também tornaria dispensável (e obsoleta) a série de comandos eletrônicos que a acionavam, bem como os estudos em Inteligência Artificial; no entanto, partida de xadrez alguma se compararia à emoção de dar vida a uma prótese de 6 metros de altura e 4 toneladas de peso.


O legado do professor Conroy enfim galgou os primeiros degraus na escada da evolução biotecnológica, e com o tempo quase podia ser confundido com uma criatura viva, graças à agilidade dos movimentos que executava.


Quase.


Para tanto faltava algo que o sensível Bobby não ousaria fazer, mas que o maquiavélico Robert não mediria esforços para conseguir: transferir sua mente consciente para um software que, inserido no cérebro bio-eletrônico emprestado a Frankie, ativasse as conexões neuronais adormecidas, sem mais necessidade de interferência externa.




*IA (Inteligência Artificial)



Continua…













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